O Paranga de Negão e Renata
Herdeiro direto de uma cultura calcada na ancestralidade trazida da Mama África nos cruéis tumbeiros, recriada e adaptada nas senzalas e cafezais da aristocracia paulista e que teve em Elpídio dos Santos o elo entre duas épocas, o Paranga é hoje o mais legítimo representante do universo musical valeparaibano.
A trajetória do grupo confunde-se com a musicalidade de São Luiz do Paraitinga, cidade imperial incrustada nos contrafortes da Serra do Mar a caminho de Ubatuba. O carnaval e o festival de marchinhas luizense são dois atrativos turísticos de grande repercussão e que teve a sua gênese no Paranga.


Dona Cinira e seu marido, o poeta e violonista Elpídio dos Santos são as principais fontes de inspiração de Negão e Renata. Vó Nira, como é mais conhecida, alimenta a imaginação com causos que são a alma luizense; Elpídio deixou uma vasta obra que passa por diversos gêneros da nossa música. Muito de seu trabalho foi imortalizado nos filmes de Mazzaropi (amigo pessoal da família) e tantas outras que continuam sendo regravadas até hoje, como por exemplo Você Vai Gostar
Fiz uma casinha branca
Lá no pé da serra pra nois dois morar
Fica perto da barranca
Do Rio Paraná
O lugar é uma beleza
Eu tenho certeza você vai gostar
Fiz uma capela bem do lado da janela
Pra nós dois rezar...

O Paranga é marca e registro de uma época que tem em Negão e Renata a sua formação básica, com responsabilidade direta do resgate, preservação e difusão do legado musical, cultural e folclórico do Vale do Paraíba. Não é tarefa fácil resumi-los em poucas linhas dado o volume de experiências e causos vividos pela dupla para a qual tudo vira música. Donos de uma musicalidade impressionante e ritmo contagiante, Negão dos Santos e Renata Marques vem representando muito bem toda essa tradição.

Negão é o apelido materno que Pedro Luiz dos Santos adotou ainda na infância; Renata é a vocalista do grupo. Essa paulistana de Guarulhos e valeparaibana por opção, com sua voz suave e gingado vibrante norteou o rumo do Paranga tornando-se referência na interpretação das canções do marido e do sogro Elpídio. À propósito, a afinidade entre o casal é tão clara, que sem nenhum esforço percebemos que eles formam uma dupla cuja simbiose é perfeita, amalgamados, coisa de quem nasceu um para o outro, unidos na vida e na arte.

Por onde passam, Negão e Renata acumulam admiradores. A esse carisma soma-se à influência das culturas locais de São Luiz do Paraitinga, Lagoinha, Catuçaba Cunha e Taubaté, ainda berço das principais manifestações religiosas e folclóricas e da boa música raiz, fonte de inspiração para artistas consagrados e aos que buscam consagração sobrando, ainda, farto material para os que vem de fora nos estudar.
O primeiro disco, Chora Viola, Canta Coração, de 1982, vem com a formação inicial da banda. O disco traz canções inéditas inclusive a que dá nome ao CD, além do remix de algumas canções de Elpídio. Em 1995, aproveitando o sucesso obtido no carnaval de 90, vem o segundo disco Porque Hoje é Carnaval. Já no terceiro trabalho, Em Nome do Pai, do Filho do Elpídio dos Santos, o Paranga nos presenteia com a maturidade dos grandes nomes da MPB. É ouvir para crer.
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