Título Original: Germano Mathias - Ginga no Asfalto - Brasil 2007
Sinopse: Considerado um dos maiores nomes do samba paulista, o cantor e compositor Germano Mathias canta e fala sobre vida e obra no DVD 'Ginga no Asfalto', dirigido pelos cineastas André Rosa e Guilherme Vergueiro e distribuído pela Lua Music . No vídeo de 54 minutos, Germano, que foi um dos nossos maiores vendedores de discos nas décadas de 50 e 60, canta seus sucessos acompanhado por Quinteto em Branco e Preto, Raul de Souza, Bocato, Guilherme Vergueiro, Osvaldinho da Cuíca, Luizinho Sete Cordas, Alex Buck e outros. Nascido no bairro Barra Funda (São Paulo), Germano começou a carreira em 1955 e um ano depois gravou seu primeiro sucesso Minha Nega na Janela. Seu primeiro LP Germano Mathias, o Sambista Diferente (1957) fazia referência, no título, a seu jeito diferente, sincopado, de interpretar sambas e ao acompanhamento percussivo feito por uma tampa de lata de graxa. Com patrocínio da Petrobras, 'Ginga no Asfalto' traz Germano Mathias falando sobre sua carreira e cantando, com seu característico estilo, músicas como A situação do Escurinho, Guarde a sandália dela, Apague a tua vela, dentre outras. (fonte )
GERMANO MATHIAS, "O CATEDRÁTICO DO SAMBA"
por Caio Silveira Ramos
Germano Mathias é paulistano, nascido no bairro do Pari em 2 de junho de 1934. Filho de pai carioca e mãe paulistana, ambos de ascendência portuguesa, ainda menino Germano ouvia fascinado pelo rádio os grandes sambistas das décadas de 40 e 50, principalmente os intérpretes de samba sincopado e de morro. Profundamente influenciado por Ciro Monteiro, Jorge Veiga, Moreira da Silva, irmãs Linda e Dircinha Batista e Aracy de Almeida, foi em Caco Velho que Germano encontrou seu modelo ideal. Gaúcho de Porto Alegre, nascido em 1919, Matheus Nunes (conhecido como Caco Velho por cantar no início da carreira o samba do mesmo nome, de Ary Barroso) construiu sua fama em São Paulo, tendo por slogan, "O Sambista Infernal", pela sua interpretação repleta de bossa, improvisos e domínio rítmico.
Inundado pelo canto e pelo repertório de Caco, Germano aos 18 anos de idade, de passagem pela Praça da Sé, conheceu os engraxates que faziam batucada nas caixas de madeira e latas de graxa, seja quando lustravam os sapatos dos fregueses ou quando disputavam o jogo da tiririca, espécie de capoeira em que um dos participantes tenta derrubar o outro dentro da roda, enquanto o samba é cantado por todos. Rapidamente Mathias aprendeu não só o bailado dos pés e pernadas, mas também a arte de dominar os instrumentos de percussão e o canto ritmado, o que o fez ser recebido como bamba respeitado nas rodas da cidade, como as da Sé, da Barra Funda e Rua Direita, núcleos onde a cultura negra se manifestava com liberdade e inventividade. A lenda do Branquinho Pixaim começava a ser moldada.
No começo da década de 50, Germano foi convidado para integrar a ala de frigideiras da Escola de Samba Rosas Negras, ingressando logo em seguida na Lavapés. Nessa época, o piracicabano Toniquinho Batuqueiro, um dos guardiães do samba rural paulista, admirando o modo de cantar e sambar de Germano, sugeriu ao amigo que tentasse a carreira artística. Mathias, adotando o pseudônimo de Barra Funda, então se inscreveu nos programas de Calouros da Rádio Nacional de São Paulo, sendo tantas vezes premiado que sua contratação só não foi efetivada devido à convocação para o Exército.
Mesmo servindo na Artilharia Anti-Aérea em Quitaúna, Germano não conseguia abandonar o samba, sendo nessa época conhecido como "Moleque Madureira" por seus companheiros, que admiravam sua interpretação da composição de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, sucesso na voz de Aracy de Almeida, "Chorou Madureira (Paulo da Portela)". Ao sair do Exército em 1955 ele encontrou definitivamente o seu destino: após nove eliminatórias, interpretando o samba de sua autoria (em parceria com Firmo Jordão, o "Doca"), "Minha Nega na Janela", Germano venceu, em 26 de outubro, o Concurso "À Procura de Um Astro" do Programa "Caravana da Alegria" da Rádio Tupi de São Paulo (dirigido por J.Silvestre, Cláudio de Luna e o maestro Élcio Álvares), que justamente buscava um substituto para o ídolo Caco Velho, que fora trabalhar na Boite La Macumba de Paris. Contratado pelas Emissoras Associadas (Rádios Tupi e Difusora de São Paulo) como "cantor e executante de instrumentos exóticos", no ano seguinte Germano já entrava nos estúdios da gravadora Polydor para registrar seu primeiro disco de 78 rpm: de um lado "Minha Pretinha", de Jair Gonçalves e Edson Borges, e do outro, "Minha Nega na Janela", um sucesso instantâneo. No mesmo ano gravou mais dois discos, entre os quais se destacou o samba "A Situação do Escurinho", de Aldacir Louro e Padeirinho da Mangueira. Essa composição ("continuação" do "Escurinho", de Geraldo Pereira, sucesso de 1955 na voz de Ciro Monteiro) renderia não só os prêmios Roquette Pinto e Guarany para Germano em 1957, como inauguraria uma parceria de profunda amizade e afinidade musical com o gênio Padeirinho, já que Mathias, por vontade do próprio mítico compositor mangueirense, se tornaria seu intérprete mais constante. Ainda em 57, com outras gravações, como "Senhor Delegado" (de Antoninho Lopes e Ernani Silva) e "Falso Rebolado" (de Venâncio e Jorge Costa, de quem Germano também se tornaria o maior intérprete), ele lançou seu primeiro LP (em 10 polegadas): "Germano Mathias, o sambista diferente", disco que, por sua modernidade e criatividade rítmica, provocaria profundo impacto no jovem Gilberto Gil.
Em 1958, já na RGE, Germano lançou mais um estrondoso sucesso: "Guarde a Sandália Dela" (parceria sua com Sereno, gravado posteriormente por Elis Regina). No mesmo ano surgiu seu primeiro LP de 12 polegadas: "Em Continência ao Samba", que além do belo texto de Osvaldo Molles na contracapa, revelou outros grandes sucessos como "Lata de Graxa" (de Mário Vieira e Geraldo Blota) e "Tem Que Ter Mulata" (do gaúcho Túlio Piva). Esse LP também instaurou uma marca que se tornaria constante na carreira de Germano: a de revelar compositores não profissionais, muitas vezes marginalizados, mencionando seus nomes em shows e valorizando suas obras, numa prática muito diversa daquela utilizada na década de 20, quando se compravam autorias e se procurava esconder o artista de verdadeira origem popular.
"Hoje Tem Batucada", de 1959, com texto de apresentação de Walter Ceneviva, foi seu segundo LP lançado pela RGE, marcando o início de mais uma cumplicidade musical com um sambista do Rio de Janeiro: Zé Kéti, que escolheu Germano para lançar "Mexi Com Ela", "Vigarista de Terreiro" (com Álvaro Xavier) e o grande sucesso "Malvadeza Durão". No mesmo ano, foram lançados dois filmes nacionais com a participação de Mathias: "O Preço da Vitória" (direção de Osvaldo Sampaio - (Ubayara Filmes), em que cantando "Lata de Graxa", ele reproduz magistralmente com Nerino Silva a batucada dos engraxates com suas rodas de tiririca, e "Quem Roubou Meu Samba ?" (direção de José Carlos Burle - Cinelândia Filmes/Cinedistri), no qual, além de cantar "Figurão" (composição sua com Doca), ele contracena com Ankito, numa das cenas mais antológicas das chanchadas nacionais.

Em 1961, já contratado pelas Emissoras Unidas (Rádio e TV Record) Mathias registrou suas primeiras gravações na Odeon, lançando em 1962 o LP "Ginga no Asfalto" com nove composições de Jorge Costa, entre as quais, os sucessos "Baile do Risca Faca" e "Bonitona do 1º Andar", sambas feitos com o próprio Germano, que, por imposições da legislação autoral da época, que não admitia parceria de dois compositores de sociedades arrecadadoras diferentes, registrou as músicas no nome de uma mulher, que apelidou de Durum Dum Dum. Em "Ginga no Asfalto", além de experimentações de divisão rítmica (como na gravação de "Vaidosa", de Herivelto Martins e Arthur Moraes), Germano revelou mais um genial compositor, Geraldo Filme, que teve seu primeiro samba gravado, "Baiano Capoeira", uma brilhante parceria com Jorge Costa.
Nos anos seguintes Germano, além de participar de inúmeras propagandas veiculadas em revistas, TVs e rádios (gravou o primeiro jingle para a Kellogs no Brasil), lançou outros sucessos de Zé Kéti como "Nega Dina" (compacto Philips, de 1964) e "O Assalto" (LP Polydor "Samba de Branco", de 1965, que também trazia "Opinião" e "Diz que Fui Por Aí" em registros antológicos e contemporâneos aos de Nara Leão). Ainda nesse biênio comandaria o programa de televisão "Nosso Ritmo é Sucesso", na TV Paulista (futura TV Globo), e lançaria "História de Um Valente", samba de Nelson Cavaquinho, cuja a interpretação causaria a admiração seu autor.
Em 1º de maio de 1967, Germano recebeu o Diploma de Bacharel da Ordem da Palheta Dourada do "G. R. Escola de Samba X9" de Santos. Porém, o jornalista e ator Randal Juliano, observando o reconhecimento do talento de Mathias pelos bambas de todo o País, rendeu-lhe o devido grau de excelência dentro da música brasileira, atribuindo-lhe o título de "O Catedrático do Samba", nome, aliás de outros dois LPs seus, lançados, um, pela Cantagalo, em 1967 (cujos os destaques são três sambas inéditos de Padeirinho, "Doutor no Samba", "Vou Ficar Devagar" e o eterno sucesso dos shows de Germano, "Terreiro de Itacuruçá") e o outro, pela CID, em 1973 (com mais dois grandes sambas de Jorge Costa, "No Meu Tamborim Você Não Toca Mais" e "Por Motivo de Força Maior", com Bráulio de Castro).
No final da década de 60, com os sucessos do genial "Apaga a Tua Vela" (de Jorge Costa e Gastão Miranda) e de "Acorda Maria Bonita" (de Volta Seca), Germano se muda para o Rio de Janeiro, aumentando o contato com os músicos cariocas, em especial com os do Morro da Mangueira, onde, sob as bênçãos de Padeirinho, foi recebido como bamba por seus pares, sendo convidado para integrar a Bateria da Verde-Rosa, tocando cuíca por dois Carnavais.
De volta a São Paulo, foi contratado em 1970 pela Chantecler, gravadora em que lançou em compacto dois sambas do jovem Martinho da Vila ("Lê Lê Lê", com Miriti e "Dinheiro de Jogo", com o lendário Cabana) e um LP de provocante título para época: "Sambas Pra Seu Governo", no qual Germano, com acompanhamento instrumental dos Demônios da Garoa e do multiinstrumentista Boneca, regravou em ritmo cadenciado antigos sucessos de Carnaval e dois sambas inéditos do ídolo Caco Velho.
Em 1971, pela CBS, lançou o LP "Samba é Comigo Mesmo" com várias composições de sua autoria (entre as quais "O Toró Já Chegou", em parceria com Caco Velho, que faleceu em setembro daquele ano), um "samba duro" ("O Terreiro Tá", dos amigos do tempo das batucadas, Carlão e Toniquinho) e um samba com influência dos cantos de umbanda ("Homenagem aos Orixás" de Jerônimo). Também nesse LP, Germano, interpretando "Pressão Baixa", revelou o paraense Kazinho, brilhante compositor de sambas sincopados.
Foram aliás os sambas de Kazinho que serviram de base para o LP "Germano Mathias" pela Beverly, de 1974. Além de "Eu e a Saudade pela Rua", "Meu Viver", "Como é que Pode" e o inesquecível "Deu a Louca na Nega", todas do compositor paraense, são destaques desse disco, sambas de Caco Velho, Jorge Costa, Padeirinho, Henricão e Laurindo Saudade.
Em 1975 Germano gravou seu primeiro programa com Fernando Faro pela TV Cultura, o "MPB Especial", no qual conta histórias de sua vida e interpreta, além de seus sucessos, fados que ouvia na infância. Em 1978, enquanto morava em Campinas numa temporada na Boite "O Cangaceiro", foi relançado com o título de "Uma Noite na Gafieira" o LP "Em Continência ao Samba". No mesmo ano, Gilberto Gil, confesso fã e intérprete assíduo dos sambas de Germano, lançou "Antologia do Samba-Choro": alternando faixas interpretadas por Mathias (extraídas do LP "O Sambista Diferente" de 1957) com outras executadas por Gil (que também assina o texto de apresentação do LP, no qual proclama a modernidade do canto de Germano), o disco alcançou grande sucesso, levando a CID, no ano seguinte, a relançar, com o título de "A Gafieira Paulista de Germano Mathias", o LP "O Catedrático do Samba" .
Em 1986, Germano participou da trilha sonora da novela "Cambalacho", da TV Globo, cantando o samba "Jerônimo", de Eduardo Gudin e Carlos Melo, tema do personagem de Gianfrancesco Guarnieri. Dois anos depois, Mathias foi homenageado pelo enredo "Esquentando a Memória do Povo", da Escola de Samba Flor da Penha. Em 1990, o sambista voltou às novelas, só que dessa vez como ator, interpretando o malandro Nivaldo, em "Brasileiras e Brasileiros", do SBT. Novamente participou de um programa da TV Cultura dirigido por Fernando Faro, em 1991 ("Ensaio"), no qual interpretou pela primeira vez o "Samba da Periferia", de Elzo Augusto. O impacto do programa foi tamanho que motivou os cineastas Noel Carvalho e Alexandre Gamo a produzirem o documentário "O Catedrático do Samba", premiado com menção honrosa no Festival de Cinema de Kiev e lançado em agosto de 1999, ano em que participou, juntamente com Osvaldinho da Cuíca, Aldo Bueno e Tobias da Vai-Vai, do CD "História do Samba Paulista I" (CPC/UMES) e gravou mais um programa "Ensaio" na TV Cultura.
Em 2000, fez, entre dezenas de shows com acompanhamento do conjunto de Osvaldinho da Cuíca, uma apresentação memorável ao encaixar com perfeição sua ginga ao bebop dos arranjos do conjunto paulistano de jazz "Combo". No mesmo ano, participou de três importantes programas da TV Cultura: o primeiro "Musikaos", apresentado por Gastão; "Provocações", de Antônio Abujanra; e, com Martinho da Vila, do "Bem Brasil", de Wandi Doratioto (programa em que voltou a se apresentar novamente em 2003, juntamente com Bezerra da Silva). Ainda em 2000 foi entrevistado por Jô Soares na Rede Globo e por Bóris Casoy na Rede Record, sendo também homenageado com um comovente texto do jornalista Luís Nassif publicado na Folha de São Paulo.
No ano seguinte, participou com Sérgio Cabral e Noite Ilustrada do espetáculo "Boteco do Cabral", em homenagem a Ciro Monteiro. A parceria com o jornalista carioca se repetiu em 2002, novamente no "Boteco do Cabral", só que dessa vez em tributo a Moreira da Silva e com participação de Jards Macalé. No mesmo ano, foi entrevistado por Marília Gabriela no SBT, novamente por Jô Soares na TV Globo e pelos integrantes do site Gafieiras. Lançou ainda, pela gravadora Atração, o CD "Talento de Bamba", só com sambas de Elzo Augusto, dos quais se destacam "Samba da Periferia", "Produto Brasileiro", "Ela" e "São Paulo, Mãe-Madrinha", um dos principais temas das comemorações pelos 450 anos da cidade de São Paulo, em 2004. Ainda nesse ano foi selecionado para o Projeto Pixinguinha 2004-2005 (Funarte).
Após o sucesso das quatro apresentações ao lado do Quinteto em Branco e Preto no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro, Germano Mathias se prepara para lançar, também pela gravadora Atração, o CD "Tributo a Caco Velho". Germano ainda tem outros três projetos prontos para gravação: "Na Base do Sincopado", com sambas novos seus e de outros autores, e mais dois CDs, um de músicas nordestinas e outro com sambas da década de 40 e 50, pois Mathias, além de suas pesquisas no campo da metafísica, é incansável estudioso de cocos e de antigos sambas de morro.
Apesar dos 17 discos em 78 rpm, 11 LPs originais (relançados com títulos diferentes em outros 3 LPs e, posteriormente, em mais 3 CDs), inúmeros compactos, um CD reproduzindo o MPB Especial de 1975 e um CD original, Germano é essencialmente um artista de palco, pois as gravações existentes não fazem justiça ao seu talento de improvisador, ao seu samba no pé, aos seus breques e bossas, reiventados a cada apresentação, à sua lata de graxa repercutindo em forma de batuque os sons de Aruanda, ao seu trombone de boca, à sua cuíca imaginária, às suas histórias cheias de picardia, enfim, a sua paixão incontrolável pela música brasileira.
"Mestre do samba sincopado", "gênio da ginga bebopada", "catedrático do samba": vários títulos para um homem cuja maior honra é continuar sendo chamado unicamente de sambista e que encontra a melhor definição na exclamação de Bezerra da Silva ao vê-lo no palco: "o que Germano Mathias faz, ninguém consegue fazer igual !"


CDs de Germano Mathias disponíveis:
- As 20 Preferidas (RGE)
- A Música Brasileira Deste Século Por Seus Autores e Intérpretes (SESC/TV Cultura)
- Sambas Pra Seu Governo (Warner)
- Ginga no Asfalto (EMI)
- Talento de Bamba (Atração)
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